quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Apartar-se


Está lá, é bíblico: há o tempo de abraçar, e o tempo de afastar-se de abraçar.

Precisamos entender – sempre – que não controlamos tudo ao nosso redor. Mas não podemos – jamais – abrir mão da parte que nos cabe. A justa medida. A justa medida, nada menos nem além disto.

Escolhas implicam, sempre, em renúncia. Ainda que machuque – e está machucando, muito. Muito. Visceralmente. – eu renuncio. Sacrifico o agora.

Por que, se perdemos nossos princípios, nossas verdades, o que será de nós? O que será de nós se perdermos nossas essências? Se não estivermos inteiros, íntegros, se não houver cuidado...

Nada de bom pode, de fato, nascer assim.


“Se o tempo foi...
Você marcou presença onde não havia valor
(…) Minha mente só me traz você.”

Parúsia, Rosa de Saron.

O amor é um grande laço, um passo pr'uma armadilha
Um lobo correndo em círculos pra alimentar a matilha

(..) O amor é como um raio galopando em desafio
Abre fendas, cobre vales, revolta as águas dos rios

(...) E o coração de quem ama fica faltando um pedaço
Que nem a lua minguando, que nem o meu nos seus braços.”

Faltando um pedaço, Djavan.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Excertos

As palavras exatas para hoje... todas já foram escritas, e bastou a mim transcrevê-las... deleitem-se, como eu me deleitei, relendo.

“Não existem declarações de amor com sinceridade absoluta. Muito menos elogios, jantares, casamentos e literatura. Jamais houve um só verão que tenha sido vivido com franqueza. A própria imaginação do tempo embaralha as lembranças com o que não aconteceu, para que nossa própria existência entre para o álbum de família como mais interessante. Mentem com veracidade os que escrevem diários (…) E todos salvam heroicamente as existências pessoais e alheias da completa mediocridade.”

Papel Manteiga para embrulhar segredos – Cartas Culinárias, Cristiane Lisbôa (p. 57)


“ 'Não, Pablo, não' – supliquei-o beijando na face, muito perto da boca. 'Eu vou ser Cora para você, somente para você.' (…) Ainda lhe acariciei um pouco o cabelo, arrumei as cobertas esperando que me dissesse alguma coisa, mas ele estava muito longe e senti que se eu ficasse o faria sofrer mais.”

Todos os fogos o fogo, Julio Cortázar (p. 90)

Todos abaixo em Um Dia, David Nicholls:

Trinta e poucos anos
Às vezes você percebe quando os seus grandes momentos estão acontecendo, às vezes eles surgem do passado. Talvez seja a mesma coisa com as pessoas.” James Salter, Burning the Days (p. 209)

"– Estou falando sério, se você se aproveitar de mim ou me decepcionar ou me enganar pelas costas, eu mato você. Juro por Deus, eu devoro o seu coração.
– Eu não vou fazer isso, Em.
– Não?
– Juro que não.
Emma franziu o cenho, meneou a cabeça e abraçou-o mais uma vez, apoiando a cabeça no ombro dele, soltando um grunhido quase raivoso.
– O que foi? – ele perguntou.
– Nada. Ah, nada. É que... – Olhou para ele. – Eu achei que finalmente tinha me livrado de você.
– Acho que você não vai conseguir fazer isso – respondeu Dexter." (p. 332)

Trinta e tantos anos
“Eles falavam muito pouco do que sentiam um pelo outro: não havia necessidade de frases bonitas e pequenas atenções entre amigos tão experientes.”
Thomas Hardy, Far From the Madding Crowd (p. 333)



segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Rosa

Três meninas de rosa... em três momentos distintos do dia.

Manhã. Ela dançava ao som do piano. Nova, não mais que 5 anos, na aula de balé. Linda, pequena, formas arredondadas, algumas mechas de cabelo soltas do coque, bailando ao sabor do compasso que ela seguia. Pequena borboleta rosa.

Início da tarde. Cabelos castanho escuros, encaracolados, a blusa rosa florida combinando com o bolso rosa da calça jeans. Seis anos? Ela parecia um pouco cansada, assim como a mãe – seria o calor daquela hora? Esperavam pelo ônibus. Ainda que não estivesse correndo como o garoto ao seu lado – seu irmão? – os olhos curiosos e faceiros não perdiam um só detalhe do que se passava ao redor... até que encontraram os meus, e sorriram pra mim. Pequenina andarilha sorridente.

Fim da tarde. A garota pequena e falante, cabelos loiros na altura do ombro, com uniforme azul e branco da escola, laço e mochila cor-de-rosa, agitava a pequenina mão, feliz, acenando para sua avó, que estava do outro lado da rua. Ao mesmo tempo, conversava animadamente com seu avô, que olhava encantado, ora para ela, ora para a senhora que esperava o farol abrir. Pequenina flor rosada, pequeno fruto, promessa de futuro.

Mergulho


Ou sonho. Ou reconhecimento.
As exatas palavras para domingo, 13 de novembro.

O silêncio do dia a fez mergulhar em si mesma. Quando deu por si, navegava dentro da própria casa – que não era, senão, a própria vida. Casa pequena, aconchegante, na sala um sofá bom para esparramar. Música suave. Plantas e cores por todo o lado. A cozinha recendendo sabores, aromas, amores. A casa plana, o quintal pequeno, as árvores, uma bicicleta na garagem. A casa do irmão, perto dali. Flores e árvores pelas ruas. O dia com a luz da hora que mais gostava: o crepúsculo. O dia bondoso e comprido – em suas horas cabiam o trabalho, o café, a livraria ou a piscina, o jantar.

Nunca demorou-se tanto em um mergulho... mas quando dele acordou, sabia – de novo – o que fazer. A vida – uma vez mais – a acolhia, e lhe mostrava qual caminho seguir.

"Há um vilarejo ali
onde areja um vento bom
Na varanda, quem descansa
vê o horizonte deitar no chão"

Versos do lindo Vilarejo, Marisa Monte.

Reverberação


A palavra exata para sábado, 12 de novembro de 2011.

Os sons produzidos no dia anterior reverberaram... e o gosto agridoce da lágrima – inevitável, amar dói – ainda se fez sentir.

Tal como em uma orquestra, há muitos sons por harmonizar.

sábado, 12 de novembro de 2011

Vazio

A palavra exata para sexta-feira, 11 de novembro de 2011.


A xícara de café ainda está sobre a mesa.
A comida do jantar, sobre o fogão.
A lâmpada do escritório, ainda queimada.


Quando o verbo – precursor da ação – não é seguido do ato
Tudo esvazia
Tudo perde o sentido
O significado


Palavras vazias...
É melhor não resistir
Desista.


"Palavras, apenas
Palavras pequenas
(...) Palavras ao vento"


Cássia Eller, Palavras ao Vento

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Diacrítico

Teu nome
na minha boca

Ora suave
Ora denso

Modulo cada vogal
Inflexiono o diacrítico

Pronuncio lento

Os sons ascendem
e descendem

a língua
e seus movimentos

Teu nome
na minha boca
eu saboreio

Teu nome
na boca
minha

eu desejo.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Íncola


Navegou por águas desconhecidas
Até avistar a terra de seus sonhos
e ali aportar


Inimaginável
Inesperado
Insuspeito


Surpreendentemente
de repente
íncola de mim

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Profunda

Vai ter coragem? Precisa, muita.


Você quer? Precisa querer e cuidar, muito.


Eu sou assim.


Para compartilhar

Um paciente querido, também leitor deste blog, me entregou hoje um poema.

E eu fiquei feliz muitas vezes... por vê-lo escrevendo tão bem... por saber que meu trabalho tem sido importante na vida dele... e porque estamos juntos, em momentos tão especiais de nossas vidas.

Em tempo: J. é afásico – afasia, para quem não sabe, é um distúrbio de comunicação decorrente, normalmente, de um AVC – como aconteceu com ele. Comunicar-se com desenvoltura é uma conquista imensa para quem teve afasia.

J., muito obrigada pelo carinho!



Sentimento maior


Enxugue os olhos que a tristeza te faz mal
Quebre as amarras já se foi o vendaval.
A escuridão já se rendeu à luz do sol.

Sinta que a vida é bela e se renova nas manhãs
Deixe de lado seu rancor enfim...

Se a dor é forte o sentimento é maior
Varrer as cinzas que restaram no chão

Vai que a vida é bela
Abre a janela deixe a luz do sol entrar.