quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Defenestrar

Eles conversavam animadamente no tróleibus (eram dois adolescentes se conhecendo).


De repente, o rapaz brincalhão e bem humorado ouviu da garota com cabelos longos que, se ele continuasse a falar com ela daquele jeito, ela iria defenestrá-lo. Ele ficou curioso, e um pouco quieto, mas, mesmo assim, ela não lhe disse o que era.


Quando se encontraram, de novo no tróleibus, o rapaz sorriu e falou: "se você me encher muito, quem vai te defenestrar sou eu..."


Porque hoje eu contemplei o crepúsculo...
Porque hoje é 30 de novembro.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Perplexidade


Eu estava trabalhando... e ouvi uma conversa ao telefone. A moça dizia "sim, sim, peguei o resultado. Deu positivo." E ela falou "positivo" assim, sem nenhuma inflexão diferente na voz, sem uma entonação crescente... falou positivo mantendo a mesma modulação que colocou na frase inteira. Minha escuta de fonoaudióloga ficou em suspensão: "como alguém pode contar que está grávida assim?!!"

Ela não tinha dito que estava grávida, em nenhum momento. Mas... eu simplesmente soube que era isso, quando a ouvir falar aquelas duas frases. E eu não estava errada. Depois de encerrar a ligação (ela falava com o namorado), a moça comunicou as pessoas que estavam por perto com a mesma vivacidade com que tinha conversado com seu namorado.

Eu, estudiosa da comunicação que sou, fiquei sem entender... os lábios dela sorriam, mas a fala era aquela: monótona, pouco eloqüente. Perplexa, tive dúvidas da minha capacidade para analisar os aspectos suprassegmentais daquela fala - "será que eu estou enlouquecendo? Será que não estou ouvindo?" Não. Não! Aquela fala não era uma fala de alegria, tampouco tristeza. Ela contava ao mundo que estava grávida com... intensidade nula? O que foi aquilo? O que era aquilo? O que?

Costumo celebrar uma pausa para um café na padaria com mais alegria... e brigo pelo que quero com muitíssima mais vontade. Choro minhas lágrimas com a minha alma... e, santo Deus, desconheço outra forma de viver.

Santo Deus! Se fosse eu, sabendo de um teste positivo de gravidez... se fosse eu...

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Aromas

Hoje eu quis um dia duas vezes exato...

O hálito era de hortelã
Mas quando o deixou
Nas mãos
o cheiro acre

Chorou pétalas de rosa
água de arroz
E desejou a vida
de novo
com gosto de anis

Explicação

Uma possível explicação neurocientífica para os atos que nem sempre conseguimos explicar, ainda que seja para nós mesmos...

"Se nos perguntarem o que nos move e motiva, a maioria terá dificuldade em responder. A verdade é que são poucos os que entendem o funcionamento da própria mente. Muitas vezes nos comportamos de maneira irracional, fazemos coisas imprevisíveis, por razões que não são claras nem mesmo para nós (...) Há cada vez mais indícios de que boa parte do que o cérebro faz não chega à consciência: muitas das decisões que pensamos tomar não passam de racionalizações, justificativas que nosso lado consciente dá para as escolhas já feitas pelo subconsciente.

(...) O neocórtex, "casca nova" em latim, (...) trata-se da sede do pensamento racional, tida por alguns como uma espécie de 'centro de comando'. Na verdade, o neocórtex parece mais um condutor empoleirado no lombo de um elefante; às vezes, o homem consegue guiar o animal na direção desejada, mas outras vezes o bicho vai para onde quer, e só resta ao condutor fingir que também queria ir para lá."

Trechos do excelente Uma história da ciência, de Michael Mosley e John Lynch, Editora Zahar (pág. 231). Grifos meus.


domingo, 27 de novembro de 2011

Para ouvir


"And it rips through the silence, all that is left is all... That I hide."

Capitu

Quase num murmúrio, ele confidenciou que nunca a tinha procurado porque, até aquele momento, não tivera coragem.


E ela se lembrou de Capitu. Afinal, como bem descreveu o próprio Bentinho, "Capitu era Capitu, isto é, uma criatura mui particular, mais mulher do que eu era homem". Ela pensou que, se Capitu não tivesse oferecido suas madeixas para Bentinho, ele talvez nunca a tivesse beijado. Nunca teria gritado "Sou homem!". Teria se tornado, quem sabe, protonotário apostólico. Ou, apenas, envelhecido casmurro.


Mas, diferente da história, Bentinho criou coragem. Procurou Capitu e lhe revelou seu amor. Capitu suspirou, se surpreendeu, se encantou, e aceitou.


Bento, ah, Bento! E agora? O que vais fazer?


"Uma fada invisível desceu ali, e me disse em voz igualmente macia e cálida:
'Tu serás feliz, Bentinho; tu vais ser feliz'."

Para compartilhar

"Em 1958 escrevi:

'Não há uma grande diferença entre o que é real e o que é irreal, nem entre o verdadeiro e o falso. Uma coisa pode não ser verdadeira nem falsa. Pode ser ao mesmo tempo verdadeira e falsa.'

Acho que esta afirmação ainda faz sentido e se aplica à investigação da realidade através da arte. Como escritor, como artista, defendo esta afirmação.
... No teatro, a verdade se esquiva, sempre. Quase nunca a encontramos, mas é imprescindível buscá-la. Esta busca é nosso trabalho. Muitas vezes, é no escuro que tropeçamos na verdade, ou esbarramos com ela, ou vislumbramos uma imagem ou uma forma que parece corresponder à verdade.
Mas também, muitas vezes, não sabemos que a encontramos...
A verdade, mesmo, é que não há nunca uma só verdade possível de ser encontrada no teatro. Há muitas."

Harold Pinter

O grifo é meu, e a pergunta que não quer calar, também:

O que você faz quando não sabe que encontrou a sua verdade?
Arrisco uma resposta:
Não ata, nem desata.
Erra.

Para ouvir



"I want so much to open your eyes"
But you're wasting your time.

sábado, 26 de novembro de 2011

Metade



E então a meia verdade – porque a verdade, já sentenciou Drummond, existe apenas pela metade – a meia verdade do outro se fez conhecer.


Para conhecer bem – as meias verdades, sejam as nossas ou as dos outros – é preciso ouvir atentamente. Ouvir com atenção, ouvir com o coração. Silenciar sua mente, o mais que puder, e ouvir. Ouvir com a alma.


Eu ouvi com a minha alma. E descobri que na meia verdade do outro está a inteireza da sua dúvida. Porque a palavra e o ato não pactuam. Ato e palavra são contraditórios. A palavra sinaliza um caminho. O gesto executa outro. Até quando?


Há que se respeitar o tempo de travessia, de cada um, na vida. Mas é preciso, tanto quanto, respeitar o nosso próprio tempo. Às vezes a gente pensa que ancorou no porto – nossas meia verdades. Está na hora de reescrevê-las... vou içar as âncoras, e navegar em alto mar.


Ainda não é chegado o momento de aportar.


"Não se comprometa. Tudo o que você tem é você mesma." Betty Ford

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Verdade

Verdade - Carlos Drummond de Andrade


"A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia."



Qual sua verdade? A minha exata, explícita, rasgada verdade, hoje, é: dói esperar. A minha exata verdade, hoje, é: queria celebrar. Eu colhi meu dia. Eu o celebrei. Mas eu o colhi, eu o celebrei... sozinha.


E... por mais que tenha paciência... por mais que tenha esperança... isso dói. Visceralmente. Dói.