quinta-feira, 15 de março de 2012

Renovatio

"Found yourself in a new direction"

Foi preciso cozer o vestido roto.
Careceu trocar a água da moringa, que a primeira já não estava mais fresca.
Foi preciso plantar um novo jardim, e trocar as flores do vaso.
Necessitou mudar a mobília da sala, e mudar a cama, no quarto.
Deixou os lençóis quarando, e depois enxaguou com água com anis.
Leu os mesmos livros queridos, de novo - que a leitura, tal como a água do rio, se refaz - mas leu livros novos também. Outras melodias alcançaram seus ouvidos.
De repente, um vestido novo. Um perfume novo.
Cítrico. Vermelho. Amarelo. Verde. Azul marinho.
A pele nova. (Re) novada.

E a vida, se fazendo, refaz.

Verso no início retirado de Myth, Beach House.

terça-feira, 6 de março de 2012

Para compartilhar

Novamente, dias de muito trabalho. Mas que estes não passem em brancas nuvens: Dom Casmurro... para se deliciar, sempre.

"Era tão perto, que antes de três minutos me achei em casa. Parei no corredor, a tomar fôlego; buscava esquecer o defunto, pálido e disforme (...). Tudo arredei da vista, em poucos segundos; bastou-me pensar na outra casa, e mais na vida e na cara fresca e lépida de Capitu... Amai, rapazes! e, principalmente, amai moças lindas e graciosas; elas dão remédio ao mal, aroma ao infecto, trocam a morte pela vida... Amai, rapazes!" (cap. 86)

segunda-feira, 5 de março de 2012

Elo

A palavra exata para 03 e 04 de março de 2012. Há dias assim, parecem ser um só...


Era claro: ali existia um elo. Um elo em formação.


Poderia escolher rompê-lo... elo frágil, elo primeiro, primogênito. Elo nascente, poderia interrompê-lo, fonte de água que se perde no caminho, nascedouro que desemboca em lugar algum.


Poderia escolher fortalecê-lo... alimentá-lo com as águas das tempestades que irromperam... permitir que suas águas se tornem profundas, e que nelas habitem milhares e milhares de peixes... elo água-viva, elo que vivifica, águas que seguem seu curso, águas que abençoam tudo o que toca suas margens, águas que desembocam no profundo do mar...


Elo ainda no ventre, boiando nas águas da vida. Elo água-viva. Elo que será fortalecido, e que vai frutificar.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Juliana!

Hoje talvez fosse um dia para eu fazer silêncio... mas preferi ouvir uma música e lamentar com estas poucas palavras a morte de mais uma ciclista nestas ruas cheias de pessoas e carros apressados – somos seres prestes à colisão, vilões e vítimas em contínuo abalroamento, neste trânsito infeliz e maldito.


Em memória de Juliana Ingrid Dias, 33 anos (Deus do céu, a minha idade!), em memória de tudo o que ela conquistou em sua breve vida, e desejando que sua morte sirva para melhorar a vida neste urbano absurdo. Meu grito por sua coragem, e pela coragem de todos os ciclistas que se aventuram nesta ao mesmo tempo suja, bela, triste, estimulante, caótica e perturbadora metrópole.


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Não consegui "colar" o link mas não deixe de clicar aqui, para ouvir "The Great Escape", em um belo vídeo que parece ter sido feito sob medida para este dia.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Razão


Acaso existe razão, na vida?

Acaso encontramos todas as razões, todos os motivos... tudo o que nos leva de lá para cá, e de novo nos traz de volta... tudo o que nos move nesta e não naquela direção?

O que, afinal, nos move? O que nos inflama?

Qual é o sopro? E qual a chama?


"Não te amo como se fosse rosa de sal, topázio 
ou flecha de cravos que propagam o fogo: 
te amo secretamente, entre a sombra e a alma.

(...)

Te amo sem saber como, nem quando, nem onde, 
te amo diretamente sem problemas nem orgulho: 
assim te amo porque não sei amar de outra maneira"



A Dança, Pablo Neruda.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Albus


Não foi uma manhã de sábado, tampouco uma tarde de domingo no parque.
O dia que ainda corre e escorre por entre os dedos não é vermelho, nem amarelo... também não se vislumbrou nele o arco-íris.
Ainda assim, o retrato da avó lhe sorriu pela manhã de um jeito diferente.
A rosa – agora solitária – suspirou e exalou um tênue perfume.
Um punhado de uvas passas claras deixou na boca um gosto mais doce.
E um livro com bela capa e todas as páginas em branco lhe foi entregue.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Fertilidade

Se é mesmo verdade que tudo nesta terra tropicana só começa, de fato, depois do Carnaval... lá vamos nós! Eis-me aqui, de volta!


Depois de ensaiar uma retomada que acabou não acontecendo, volto hoje cheia de idéias - nada exatas - e palavras que se pretendem únicas...


Isso é bom. O tempo anda escasso, a vida cada vez mais exigente, e, tanto quanto, bela e plena. Estou, mesmo, cheia de planos e desejos. Estes são tempos verdes... que venham os frutos! Ando grávida da vida, grávida de mim.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Imanência

Para 15 de fevereiro, quarta.


Imanente, a sua paixão. Apaixonado por tantas coisas... buscando os significados... esperando e lutando por tantos sonhos e expectativas...

Imanente, a sua força. Crente de que tudo é possível, crente na bondade das pessoas, mantendo sua fé e seu otimismo (quase) inabaláveis.

Imanentes, suas fragilidades, e sua coragem. Precisa muita coragem para se expor, para pedir desculpas e dizer: “olha, desculpa. Só te falei isso para me defender, na verdade. É que você tocou em uma fragilidade minha”.

Há momentos em que palavra e gesto se encontram. Palavra e gesto se encontram e se fundem. E tudo o que é imanente alcança a exterioridade. Palavra e gesto. Intenção e ato. Imanentes, transcendem.

Alteridade

Para 14 de fevereiro de 2012, terça-feira.


O outro e suas necessidades.
O outro e suas vontades.
O outro e suas escolhas.


No outro, nossos desejos.
No outro, as respostas aos nossos anseios.
O outro e nosso pedido de silêncio.
Aconchego.
Acolhimento.


Há que se ter sabedoria...


Entender quando o outro é complemento - e quando é preciso afastamento. Entender que o outro é espelho. Entender que o outro precisa continuar uno - assim como nós mesmos - para que, aí sim, seja possível unir, e somar.


"Eu não sou eu
nem sou outro
sou qualquer coisa de intermédio
pilar da ponte de tédio
que vai de mim
para o outro"


Mário de Sá-Carneiro.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012