sábado, 17 de dezembro de 2011

Decantar


é preciso. Para sexta-feira, 16 de dezembro.

Surpreendeu-se quando suspendeu o fino tecido que recobria a moringa. Minúsculas impurezas sobrenadantes, maculando o vinho – sim, vinho, porque aquele ela queria provar todo dia... vinho que era sua água, para bem viver – vinho caro, raro, palatável... aguardara tanto tempo para provar-lhe o sabor.... não, não iria se resignar. Ciente de si, de seu querer, preparou-se... iria decantá-lo.

Topografia


Para quinta-feira, 15 de dezembro.

Os olhos alcançaram a placa de trânsito que não era mais só uma placa de trânsito. Depois os pés perfizeram o trajeto que não era mais só um trajeto, dois pontos ligando início e chegada. Ruas e espaços valorados... o cruzamento, a padaria, a rua da padaria. Topografia urbana revisitada depois de experenciar encontros, de suspirar amor.

Olhou ao redor e desejou que aqueles tantos passantes não vivessem seus dias imersos no marasmo e na ignorância. Mas que pudessem se entregar, se apaixonar, mergulhar... viver... mesmo que fosse para sofrer, depois.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Para ouvir


"I know that this is not goodbye..."

Partilha

Partilharam sabores. Palavras. Sorrisos. Lágrimas. Silêncios. Gestos.
Partilharam amor. Eles se amavam. Eles se amaram.
Partilharam histórias. Suspiros. Risos. Gozo. Abraços. Alegrias. Tristezas. E mais lágrimas.

Por fim, um abraço mais longo, dolorido, e, de novo, o silêncio.

Naquele fugaz instante, partilharam a vontade de não deixar partir... a vontade de não se permitir ir...
Naquele intenso instante, partilharam a dor, e a partida. Partilharam seus anseios e suas crenças. Partilharam seus medos, seus desejos e suas esperanças.

Partilharam suas fragilidades e seus sonhos, em nome do desejo mútuo, e maior: partilhar a vida.


Avidez

O sentimento exato para terça-feira, 13 de dezembro.

Ao celebrar meu início de noite magicamente livre depois do segundo hospital do dia... Livraria Cultura. Adoro passear por lá e descobrir títulos ao acaso. Foi por acaso que passei a mão em Mar sem Fim, do Amyr Klink – será que foi mesmo "por acaso"?

Vai entender a vida...

Da leitura despretensiosa no café ao caixa foi um pulo. Ignorei o mal estar que sempre sinto ao ler no metrô, quase perdi o ponto de casa, e continuei lendo mesmo enquanto caminhava. Avidez... vontade de beber e de comer cada palavra. Eu chorei e ri, eu me assustei e me surpreendi com as aventuras marítimas de Amyr... mas o que foi aquilo, se não o feito de toda uma vida?

Será que eu já cheguei ao meu Southern Ocean? Ah, vida! Eu quero mais é mergulhar!

"Voltei para dentro, miraculosamente pouco ensopado. (...) Minutos depois, uma cachoeira lateral vinda do norte bateu na popa, no meio de uma descida de onda, de oeste. O Paratii atravessou. De toalha em punho, escorreguei até bater na parede oposta. Do lado de fora, a retranca, onde eu me encontrava minutos antes, mergulhou inteira na onda, com a vela panejando desesperadamente, até que o piloto retomasse o rumo. (...) Não era exatamente o modo como planejei virar o ano e começar vida nova. As deliberações de Ano Novo se resumiram a uma só: escapar vivo." (pág. 103)


segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Colóquio

escolhas
Efeito Borboleta
orientação profissional
relacionamentos
I do
gramática
fonética
Colbie Caillat (Aff! Uma gracinha?! Sei...)
Multishow
decoração natalina
Cidade dos Anjos
Cidade dos Anjos francês
Alanis
Uninvited
choro
Minotauro
UFC
Kierkegaard
Nietzsche
Café Filosófico
Homens de Preto 3
Festas à fantasia
carros
fotografia
Lula
câncer
cirurgia
informações enviesadas
reabilitação
orgulho
viagem
desejo


Às vezes, todas as palavras  inclusive as banais... até mesmo as banais  são exatas.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Atrevimento


Abuso inominável. Ousadia desmedida. Entrou na casa, mexeu no computador, criou uma "my perfect list" no iTunes sem pedir licença... invadiu a cozinha, intrometeu-se no preparo dos ovos mexidos, sugeriu utensílios domésticos para comprar. Quis preparar paella. Mexeu nos livros, achando que passaria despercebido (da próxima vez, preste atenção nas lombadas...). Remexeu nas plantas e alterou os lugares dos móveis da sala. Juntou os jogos americanos, juntou as cadeiras, deixando uma grudada à outra. Atulhou a mesa da cozinha com os livros de receita, a batedeira, o liquidificador. Não quis saber do apoio para as panelas, e transferiu tudo para travessas frias. Reclamou da bicicleta, do barulho, do café e da disposição do talher. Quis discutir religião e política. Sugeriu outra cortina para a sala. Perguntou se poderia escolher "roupas novas" para a moradora. Quis tomar saquê. Desregulou a temperatura da mini-adega de vinhos.
Depois de bagunçar tudo, foi embora sorridente.
Ousado, audacioso, atrevido – e apaixonado. Abusado – e apaixonante.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Mergulho


Irrompeu com a força de águas transbordando de um manancial.
Sobreveio com o ímpeto de uma tempestade em uma tarde de verão.
Precipitou-se, súbito, tal qual maré alta invadindo as areias da praia.


Assim era a força estranha daquele sentimento. Assim era a torrente de desejos que a fazia suspirar toda a vez que o via. Quando o ouvia. Quando o adivinhava sorrindo, ao telefone. Assim eram abruptos e intensos o sentimento, e o desejo.


Por mais absurdos e improváveis e inimaginados e inesperados e inusitados que tenham sido aqueles caminhos, ao longo dos tempos... pela vida afora... restou a ela uma única escolha: mergulhou.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Para ouvir


"I wrote a song for you (...)
Do you know?
You know I love you so"

Amarelo


Acordou solar, e vestiu amarelo.

Amarelo, saboroso como a gema do ovo frito por cima do arroz fresco.
Amarelo espiga de milho.

Amarelo para destacar a hora mais importante do dia. Amarelo encantado como o girassol...

Amarelo, a cor do sonho luminoso que tivera: manhã de sol em um parque, balanços e gangorras, crianças rindo e brincando.

Amarelo alegria.
Amarelo, a mais bela cor para as flores do ipê.

Amarelo para comer com prazer.

Amarelo suave, vigoroso amarelo.
Amarelo... amar o elo... esperar o elo... Amarelo – esperança.