sexta-feira, 8 de abril de 2011

Tragédia

Deus do céu. Silêncio, de novo, e em tão poucos dias. Silêncio para respeitar o pranto e a dor de tantas pessoas. Vai saber o que se passa na vida de alguém, para resolver acabar assim.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Beijo

Eles se abraçaram longamente. E se beijaram.

Num instante, pausa. Eles se olharam. E ela pensou em olhos de ressaca, vaga, força profunda, mar. Eles se beijaram de novo, com força. Avidez.

O que vem primeiro? A ressaca? Ou a tormenta?

Hoje acordei pensando em Dom Casmurro, Machado de Assis.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Figos

Hoje comi figos. Figos doces, suculentos, sumarentos. Figos com sabor de casa, da minha avó. Figos com gosto de saudades. Saudade surda, terna mas dolorida, rosa e vermelha. Os figos tocaram meus lábios, minhas papilas gustativas, invadiram meu estômago, minhas vísceras, meu cérebro, meu coração. Sabor de figo correndo pelas veias. Cheiro de figo invadindo o olfato. Figueira à vista. Saudades. Saudade é dor? Saudade tem sabor? A saudade hoje tem cores: rosa, roxo e vermelho, e o verde do figo. Cadê minha avó? Cadê você?

terça-feira, 5 de abril de 2011

Para suspirar

Não, não é o post do dia... esse já foi, logo abaixo.

Só para compartilhar a beleza dessa música com vocês, leitores, daqui ou de outro continente – preciso começar a escrever em espanhol e em inglês :)

Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor
(...)
O quereres e o estares sempre a fim
Do que em ti é em mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente impessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há, e do que não há em mim

O quereres, Caetano Veloso, in Velô (1984)

Honra

Ela abordou o policial militar e perguntou: “oi, senhor, desculpa, é o senhor que estava naquela viatura?”
“É, é sim.” “Foi o senhor que efetuou o disparo ali?” A conversa segue, e ela afirma: “olha bem para a minha cara, senhor. (…) O senhor tem a consciência do que o senhor fez.”

Ouvi esse diálogo durante a manhã, na CBN, indo trabalhar. Para quem não sabe, refere-se a um trecho de uma ligação feita ao 190 por uma mulher, que estava visitando o túmulo do pai em um cemitério em Ferraz de Vasconcelos, e presenciou a execução sumária de uma pessoa, que havia sido capturada por dois policiais. Enquanto conversava na central, ela também falou com o próprio policial que atirou.

Comecei o dia com outra perspectiva por causa dessa notícia. Sim, lamento tudo o que ocorreu. Mas admiro muito, muitíssimo, essa mulher. Essa mulher merece respeito, reconhecimento, aplausos. A vida dela mudou para sempre, mas ela não se curvou diante do medo, não calou, e – obstinadamente – agigantou-se diante do abuso de poder, da pobreza de espírito, da podridão que assola o caráter de tanta gente.

Honra é pouco para definir essa mulher. Ela merece muitas – e as melhores – palavras exatas: dignidade, coragem, ética, grandeza.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Primeiro

Essa história é verdadeira...

Eu tinha 7 anos quando gostei pela primeira vez de alguém. O nome dele é Rafael. Eu me lembro que, certo dia, depois da aula, subi para minha cama – eu dormia na parte de cima da beliche – e escolhi um papel de carta bem bonito para dar para ele. Eu mal sabia escrever, mas lembro que peguei meu estojo, escolhi um lápis, e rabisquei, com letra de forma: "beijo". Foi só isso. Só isso, mesmo. Mas a minha mãe quase me matou.

Ela me viu muito interessada mexendo nas minhas coisas, selecionando papéis e lápis – eu acho que cheguei a confirmar com ela a grafia de "beijo", mas sobre esse ponto não tenho realmente certeza... Sei que, depois de muito trabalho – de certa forma, a garota de 7 anos era um prenúncio da mulher de 32 – minha mãe resolveu checar qual o motivo de toda minha movimentação e evidente contentamento na beliche:

" – Fabíola, o que é que você está fazendo aí?
– Eu, mãe?! Nada!! (será que a gente mente por instinto? Psicólogos de plantão, manifestem-se!)
– Então deixa eu ver isso aí nas suas mãos!
– Ah, não, mãe, é coisa minha... "– já assustada e meio chorosa, tentando colocar a carta atrás do corpo.

É óbvio que a minha mãe leu A carta, A declaração de amor que eu fiz para o Rafael. E não só leu, como me passou um sermão: que eu, menina, não poderia mandar beijos para um menino. Que meninas decentes não mandam beijos para meninos. E que se eu, menina decente, resolvesse correr o risco de – pior ainda! – beijar um menino, eu me tornaria uma menina má, e – mil vezes pior! – seria mal falada.

Depois de todo esse sermão – e da minha declaração de amor pueril confiscada pela minha mãe – eu não tive coragem de escrever outra carta para o Rafael. Às vezes aquele garoto com cabelos cacheados castanhos e pálpebra direita meio caída – ele tinha um rosto de anjo! – sorria para mim no recreio, e o meu rosto, na hora, sempre ardia de tão vermelho. Mas, no fim das contas, a gente nunca se beijou.

Só muito tempo depois, adultos, cada um indo para o seu trabalho, e só no rosto... quando, por duas vezes, a gente se cruzou no metrô. Ele ainda tem o mesmo rosto de anjo, e por isso o reconheci. Mas ele também me reconheceu, de imediato. Considerando que nós estudamos juntos apenas durante a primeira série – em 1986 – talvez ele também tenha querido, naquela época, me beijar.


Ainda bem que o tempo passa, e a gente aprende algumas coisas importantes na vida. Não sei se foi por isso, mas o meu primeiro beijo, anos depois, foi, tecnicamente, um desastre. Fiquei mal – de novo! – na época, mas nada que a prática não tenha aperfeiçoado.

E, como hoje eu já sei que beijar não me tornará uma menina mal falada, mando beijos, muitos, e sorrisos também, para todos os garotos e garotas que me lêem. E, ah! Muito obrigada... já são quase 450 acessos. Uau! Estou feliz.

domingo, 3 de abril de 2011

Estampa

Para Sílvia

Escolheu, para o casamento do irmão, o longo estampado: laranja, amarelo, lilás e azul. A mãe estranhou, o pai disse que parecia “vestido de madrinha de bateria, não de madrinha de casamento” – e ela riu.

No dia esperado, colocou na cabeça uma tiara delicada, escolheu os brincos, belo par de sandálias, e saiu para brilhar – não, não era para competir com a noiva. Era, isso sim, para brilhar – para si própria, para o mundo.

Porque ela não queria a vida monocromática. Porque ela festejou com orgulho seus 30 anos. Porque ela saiu na passarela para sambar. Porque ela não queria nada sem graça. Porque ela gostava de Nelson Rodrigues e da Mafalda. Porque ela ouvia Mariana Aydar, Céu e Marina de la Riva. Porque ela não queria pouco, porque ela não vivia pouco – era para ser intenso, sempre!

Para compartilhar

Esse não é o post do dia... é só para compartilhar.

Acordei pensando sobre o que iria escrever, e lembrei de uma citação em um livro que tenho no criado-mudo - o tal do "livro de cabeceira". Acabei rindo com a situação: eu não tenho um livro de cabeceira. No momento, são oito. E entre eles não estava o que eu queria. Procurei, procurei: encontrei mais um, na parte de baixo do móvel. E, ah! Dentro da gaveta, o livro que eu queria: Para uma grande mulher, ed. de Lidia María Riba, Vergara & Riba Editoras.

Bom, folheando o livro, acabei encontrado a citação que eu queria, e mais outras tantas. Selecionei uma (tem coisas que são tão difíceis... qual a citação exata?):

"...O repentino desejo de se ver formosa a fez endireitar as costas. Formosa? Para quem? Para si mesma, logicamente." Colette

sábado, 2 de abril de 2011

Nós

Para Elaine.
Para Márcia.

De repente
Ah! Que sufoco!
É preciso desenvolver
suas manuais habilidades
Pinturas, tecidos, crochê.
Macramê.
Nós no tempo.
As mãos desatando
Os nós
da vida
E eu
aqui.
O quê?
Nós na garganta
Nós na palavra
Desata os nós
do acaso.
Desabrocham as flores
pintadas na seda.
Desata os nós,
o embaraço,
e entrelaça
as palavras.
Tece-as
uma a uma
com o fio da vida.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Agora

Porque não adianta se atirar do precipício, nem achar que tudo se acabou. Se noutro dia, de repente, tudo ficou diferente, só uma coisa realmente mudou: você. Às vezes acaba o espetáculo, apagam-se as luzes, acabam-se as palavras, e você achava que não, era só um fim de capítulo, era só virar a esquina e pronto! Tudo resolvido. Encare os fatos: as coisas mudaram porque você mudou. Junte seus cacos, junte seus retalhos, e decida qual história você vai contar.

Para ler ouvindo Hóspede do tempo, Zélia Duncan, in Sortimento (2001).